Sábado, 17 de outubro de 2026

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Nova Friburgo tem um problema de pombo, e a solução não é matar

Este jornal defende que a prefeitura regule a alimentação de pombos em praça pública, com multa e fiscalização, em vez de apelar à consciência do friburguense.

Por Redação 4 min de leitura

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial

Quem caminha pelas praças de Nova Friburgo há alguns anos percebe uma mudança que passou despercebida enquanto acontecia: o pardal, ave miúda e cinza que sempre disputou migalha com o transeunte, quase não aparece mais. No lugar dele, bandos cada vez maiores de pombos ocupam bancos, marquises, beirais e o chão em torno das bancas de comércio ambulante. A cidade não perdeu só uma paisagem sonora, perdeu equilíbrio: onde havia diversidade de aves, hoje há uma espécie só, e ela se multiplica sem controle algum.

É razoável supor, ainda que não seja fato comprovado, que a disputa por alimento e por local de ninho entre pombo e pardal tenha empurrado o segundo para fora do centro da cidade. O pardal também não é nativo do Brasil: foi trazido de Portugal e solto no Rio de Janeiro em 1906, na campanha de Oswaldo Cruz, com a ideia de que ajudaria a combater os mosquitos da febre amarela. Nunca se comportou como praga: buscava sementes e insetos, mantinha distância do lixo. O pombo urbano é outro animal em hábito. Ele se alimenta do que sobra na rua, de resto de comida jogado no chão, de lixo mal acondicionado, e é justamente essa fartura de restos que sustenta populações tão grandes em tão pouco espaço.

Parte da população de Nova Friburgo tem o hábito de espalhar milho e pão nas praças para os pombos, num gesto que imagina ser de cuidado. Não é. Alimentar o pombo na praça não faz bem à ave: prende o bando num ponto fixo, estimula reprodução acima do que o ambiente comporta e cria acúmulo de fezes secas em bancos, chão e estrutura pública. É essa fezes ressecada, transformada em poeira fina que se solta com o vento ou a varrição, que carrega fungo e bactéria: criptococose, histoplasmose, ornitose e salmonelose são doenças associadas a essa contaminação, e a via de entrada no corpo é a respiração, não o contato direto com a ave.

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Quem alimenta pombo na praça diria que faz caridade, que a ave também precisa comer. O argumento não resiste ao que se vê: não é caridade sustentar, com pão jogado no chão, um bando que cresce mais rápido do que a praça suporta e que espalha doença sobre o próprio banco onde a criança senta. E matar os pombos, alternativa que volta e meia aparece como solução fácil, não resolve nada: a própria Universidade de São Paulo orienta que o extermínio não reduz população de pombo urbano, porque o espaço vago é reocupado por outro bando, e quem determina o tamanho do grupo é a oferta de comida disponível, não o número de indivíduos abatidos.

Resta, então, o que a prefeitura de Nova Friburgo ainda não fez: regular. O Instituto Brasileiro de Administração Municipal já reconheceu, em parecer, que o município tem competência para legislar sobre a proliferação de pombos por meio de postura municipal, o que afasta qualquer alegação de que o tema seria de outra esfera de governo. São Paulo já proíbe, por lei, alimentar pombo urbano e manter abrigo para eles em área pública; Balneário Camboriú vai além e cobra multa de R$ 431,54 de quem alimenta a ave em espaço público. Nova Friburgo pode e deve seguir o mesmo caminho: aprovar norma municipal que proíba a alimentação de pombos em praça e logradouro público, fixar valor de multa e dar à Guarda Municipal e à fiscalização de posturas a tarefa de aplicá-la. Apelo genérico à consciência do friburguense não mudou nada até aqui e não vai mudar daqui para frente. Regra escrita, com multa e fiscalização, muda.

Este texto é a opinião do Serra em Foco. Críticas e réplicas podem ser enviadas pelo Contato e serão publicadas.

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