Em Bom Jardim, o sobrenome do vizinho ainda conta a história da lavoura
Entre o café que empobreceu a terra e os imigrantes que vieram depois, a cidade guarda no campo o desenho de uma ocupação que nunca deixou de ser rural
Quem sobe as estradas de terra que cercam Bom Jardim, passando por sítios pequenos e casas de alvenaria simples cercadas de plantação, está andando sobre uma camada de história que raramente aparece em placa ou monumento. Não existe ali um casarão de fazenda erguido como símbolo do município, nem um museu do café organizando a memória em vitrines. O que existe é mais discreto: a própria forma como a terra foi dividida, ocupada e trabalhada, que segue moldando a paisagem que o morador vê hoje da janela.
A história começa com o café, que na segunda metade do século 19 avançou pela Região Serrana como avançava por quase todo o Rio de Janeiro daquele tempo, abrindo picadas na mata, subindo encostas, criando fazendas onde antes havia floresta fechada. Essa economia não se sustentou sozinha. Foi erguida sobre o trabalho escravizado, como em praticamente toda a lavoura cafeeira fluminense do período, e é importante que essa memória não seja apagada quando se fala em prosperidade agrícola de então. Não há registro de que Bom Jardim tenha sido diferente do padrão regional nesse aspecto, e tratar o café como uma espécie de era dourada sem mencionar quem sustentava essa produção seria contar apenas metade da história.
O que distingue o território que hoje é Bom Jardim de outras áreas cafeeiras da Serra é o que veio depois do esgotamento das grandes lavouras. Quando o solo cansou e o café perdeu força, entrou em cena um processo que se repetiu em vários pontos da região: a fragmentação das grandes propriedades em unidades menores, muitas delas ocupadas por famílias de imigrantes europeus que chegaram para trabalhar a terra em escala doméstica, não mais em plantéis extensos. Essa mudança de escala é decisiva para entender o desenho fundiário que ainda hoje caracteriza a zona rural do município, marcado por sítios e pequenas propriedades familiares em vez de latifúndios.
Esse passado explica algo muito concreto que quem mora em Bom Jardim reconhece sem precisar de livro de história: a paisagem de policultura miúda, com hortas, plantações diversificadas e produção voltada tanto para o consumo da família quanto para o abastecimento dos centros urbanos vizinhos. É um jeito de ocupar a terra que vem diretamente daquela reorganização pós-café, quando a antiga estrutura de grandes fazendas cedeu lugar a um mosaico de pequenas propriedades trabalhadas por seus próprios donos, muitos deles descendentes daqueles imigrantes que vieram justamente para preencher esse novo modelo produtivo.
O desmembramento administrativo de Nova Friburgo, que deu origem ao município de Bom Jardim, não aconteceu no vácuo. Ele acompanhou esse processo de consolidação de uma identidade própria, ligada a uma economia rural de pequena escala que já vinha se firmando havia décadas. Separar-se de Nova Friburgo foi, de certa forma, reconhecer no papel uma diferença que já existia no território: uma vocação agrícola distinta, menos voltada para o polo urbano e industrial que Nova Friburgo foi se tornando, e mais enraizada na terra trabalhada em pequena propriedade.
Caminhar hoje pelas localidades rurais de Bom Jardim é, em certa medida, caminhar por essa herança. Os sobrenomes de origem europeia que aparecem em placas de sítios, em letreiros de mercearias e em listas de produtores locais não são coincidência nem folclore regional: são o resquício direto daquela leva de famílias que vieram ocupar as terras liberadas pelo declínio do café. A economia de hoje, apoiada fortemente em hortifrutigranjeiros e pequena produção agrícola, é continuação direta daquele arranjo que se formou há mais de um século, quando a grande lavoura não coube mais e a terra precisou ser repartida entre gente disposta a plantar em escala menor.
Não há como contar essa história sem reconhecer as duas faces dela: a violência da economia cafeeira que antecedeu esse rearranjo, e a resiliência de quem, depois, transformou pedaços pequenos de terra em modo de vida. Bom Jardim carrega as duas camadas, mesmo que a cidade de hoje pareça, à primeira vista, distante daquele século 19. Basta olhar para o tamanho dos sítios ao redor e para os nomes nas caixas de correio para perceber que o passado nunca foi embora de verdade, apenas mudou de forma.
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