Em Lumiar, o roçado de montanha que ficou antes de virar destino de trekking
O distrito rural de Nova Friburgo que hoje atrai turistas de natureza e famílias que buscaram outro modo de vida carrega, na paisagem, a marca de gerações que só conheceram a lida com a terra em pendente
Quem sobe a estrada que leva a Lumiar hoje encontra placas de pousada, ateliê de artesão, restaurante vegetariano e sinalização para trilha. Mas basta olhar para os lados da via, para os terrenos em socalco, para as roças pequenas encaixadas entre um paredão e outro, para entender que essa paisagem não nasceu do turismo. Ela é resultado de um trabalho muito mais antigo: o de famílias que, geração após geração, aprenderam a plantar em terreno de serra, onde a máquina não entra e a enxada ainda manda.
Lumiar se formou como um dos distritos rurais de Nova Friburgo, num processo comum a toda essa parte da Região Serrana, onde o relevo acidentado nunca permitiu a monocultura extensiva que marcou outras regiões do estado. Aqui a lógica foi outra: pequenas propriedades, muitas delas de famílias descendentes de imigrantes europeus que se espalharam pela zona rural do município ao longo do século 19 e do início do 20, foram ocupando os vales e as encostas menos íngremes, produzindo hortaliças, frutas, flores e, depois, também leite e derivados. É esse mosaico de lotes pequenos, e não a grande fazenda, que explica por que Lumiar até hoje não tem uma paisagem de latifúndio, mas de retalhos cultivados.
Essa estrutura fundiária fragmentada é uma herança direta daquele período de colonização, e ela segue visível no jeito como a terra está dividida ao redor do distrito. Não houve ali, como em partes do Vale do Paraíba, a formação de grandes fazendas de café sustentadas pelo trabalho escravizado em escala massiva. Isso não isenta a região do peso desse sistema, que existiu em graus variados em toda a serra fluminense e sustentou parte da economia da província no século 19, mas ajuda a explicar por que o desenho de Lumiar sempre foi outro: o de sitiantes, não de senhores de fazenda.
Foi sobre essa base de agricultura familiar de montanha que Lumiar atravessou o século 20 relativamente isolado, dependendo de estradas precárias e de um comércio local modesto, vivendo do que a terra dava e do pouco excedente que conseguia escoar para Nova Friburgo. Essa mesma condição, a de lugar afastado, de difícil acesso e paisagem preservada, é que décadas depois viraria atrativo. Quando o turismo de natureza e depois a contracultura descobriram a região, a partir do fim do século 20, encontraram exatamente aquilo que o isolamento havia conservado: rios limpos, mata em pé, encostas ainda cultivadas em pequena escala e uma comunidade rural que nunca tinha sido apagada por grande empreendimento algum.
A chegada de moradores de fora, atraídos por esse cenário e por um estilo de vida alternativo, trouxe pousadas, ateliês, feiras orgânicas e um comércio voltado ao visitante, mas não substituiu a base agrícola antiga, ela se sobrepôs a ela. Muitas das famílias que hoje vendem hortaliça na feira de Lumiar, ou que mantêm um sítio de flores, são descendentes diretas daqueles primeiros ocupantes rurais do distrito. O turismo de natureza que hoje sustenta boa parte da economia local só é possível porque a paisagem que ele vende, a de terra cultivada em harmonia com a serra, foi construída ao longo de mais de um século de trabalho de gente que nunca imaginou que aquele esforço diário se tornaria, um dia, atração.
Caminhar hoje pelas ruas estreitas de Lumiar, cruzar com o sitiante que desce com a produção da semana e com o turista que sobe de mochila para a trilha, é enxergar duas camadas de tempo convivendo no mesmo espaço. A vocação de montanha, que impediu a grande fazenda e obrigou a agricultura em pequena escala, é a mesma que hoje preserva o verde que atrai quem busca sossego e natureza. O distrito não mudou de destino, apenas encontrou um novo uso para uma vocação que já tinha: a de lugar onde a terra escarpada exige respeito, e onde esse respeito, por acaso ou por necessidade, terminou virando paisagem de tirar o fôlego.
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