Nos armários de Nova Friburgo, o fio suíço que virou moda íntima brasileira
A cidade que recebeu os primeiros imigrantes europeus do Brasil guarda, na indústria têxtil, o traço mais duradouro daquela chegada
Quem abre um catálogo de lingerie brasileira ou passa pelas fábricas e outlets espalhados pelo centro e pelos distritos de Nova Friburgo está diante de um capítulo que começou muito antes das costuras industriais, quando famílias suíças desembarcaram para tentar a vida numa terra prometida por dom João VI. A promessa era de lotes de terra e liberdade religiosa, num tempo em que o Brasil precisava povoar suas montanhas com mão de obra livre e europeia, diferente da lógica que sustentava as fazendas de café que já se espalhavam por outras partes do país.
Os suíços chegaram cansados de uma travessia longa e de expectativas que nem sempre se cumpriram como prometido. Muitos morreram, outros seguiram para outras regiões, mas os que ficaram trouxeram consigo ofícios artesanais, entre eles a tradição têxtil que já existia em suas regiões de origem. Não era uma indústria como se veria depois, mas um saber de tear e de agulha que se transmitia em casa, entre famílias que precisavam produzir o próprio vestuário numa região isolada, de estradas precárias e invernos frios que pediam roupas de qualidade.
Ao longo do século 19, essa base suíça foi reforçada pela chegada de imigrantes alemães e depois italianos, que se instalaram em núcleos coloniais espalhados pelos distritos mais altos e mais frios do município. Cada grupo trouxe seus próprios costumes, suas igrejas, seus sobrenomes que até hoje aparecem nas placas de comércio e nos nomes de família que se ouvem no centro da cidade. Foi esse encontro de tradições europeias, somado à altitude e ao clima ameno que lembrava a Europa, que preparou o terreno para que Nova Friburgo se tornasse, décadas depois, um polo industrial diferente do resto do estado.
No século 20, o que era ofício doméstico se transformou em indústria organizada. Fábricas de tecidos e depois de roupas íntimas foram se instalando na cidade, aproveitando a mão de obra qualificada e a proximidade com o Rio de Janeiro, que garantia mercado consumidor e escoamento fácil da produção. Foi assim que Nova Friburgo se tornou conhecida nacionalmente como polo de moda íntima, um título que carrega até hoje e que atrai visitantes de outras partes do país em busca de preços de fábrica e variedade de marcas.
Paralelamente a essa vocação industrial, a cidade também se firmou como destino de veraneio da elite carioca, que buscava nas montanhas um alívio para o calor do Rio. Hotéis e cassinos surgiram para atender esse público, e boa parte da arquitetura que ainda hoje marca certas ruas e praças do centro remonta a esse período de construções pensadas para receber visitantes ilustres. Essa vocação turística nunca se separou totalmente da vocação têxtil, já que os mesmos visitantes que vinham fugir do calor acabavam levando para casa peças produzidas ali mesmo.
Caminhar hoje pelo centro de Nova Friburgo é, de certa forma, atravessar camadas dessas histórias sobrepostas. Nos sobrenomes de origem suíça, alemã e italiana que ainda identificam famílias tradicionais, na arquitetura que lembra chalés europeus em alguns bairros, nas fábricas de lingerie que empregam parte significativa da população economicamente ativa, está o resultado direto daquela imigração planejada por dom João VI. Não foi um processo simples nem isento de dificuldades, mas deixou uma marca que poucas cidades brasileiras carregam de forma tão visível.
É essa mistura de origens que explica por que Nova Friburgo tem um perfil tão distinto de outras cidades da Região Serrana, muitas delas marcadas mais fortemente pela economia cafeeira e pela mão de obra escravizada que sustentou aquele ciclo em boa parte do estado. Aqui, o fio que se puxa é outro: o da imigração europeia livre, do artesanato que virou indústria, e da moda íntima que hoje carrega o nome da cidade para além das fronteiras da Serra fluminense.
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