Nova Friburgo tem um problema de pombo, e a solução não é matar
Este jornal defende que a prefeitura regule a alimentação de pombos em praça pública, com multa e fiscalização, em vez de apelar à consciência do friburguense.
Quem caminha pelas praças de Nova Friburgo há alguns anos percebe uma mudança que passou despercebida enquanto acontecia: o pardal, ave miúda e cinza que sempre disputou migalha com o transeunte, quase não aparece mais. No lugar dele, bandos cada vez maiores de pombos ocupam bancos, marquises, beirais e o chão em torno das bancas de comércio ambulante. A cidade não perdeu só uma paisagem sonora, perdeu equilíbrio: onde havia diversidade de aves, hoje há uma espécie só, e ela se multiplica sem controle algum.
É razoável supor, ainda que não seja fato comprovado, que a disputa por alimento e por local de ninho entre pombo e pardal tenha empurrado o segundo para fora do centro da cidade. O pardal também não é nativo do Brasil: foi trazido de Portugal e solto no Rio de Janeiro em 1906, na campanha de Oswaldo Cruz, com a ideia de que ajudaria a combater os mosquitos da febre amarela. Nunca se comportou como praga: buscava sementes e insetos, mantinha distância do lixo. O pombo urbano é outro animal em hábito. Ele se alimenta do que sobra na rua, de resto de comida jogado no chão, de lixo mal acondicionado, e é justamente essa fartura de restos que sustenta populações tão grandes em tão pouco espaço.
Parte da população de Nova Friburgo tem o hábito de espalhar milho e pão nas praças para os pombos, num gesto que imagina ser de cuidado. Não é. Alimentar o pombo na praça não faz bem à ave: prende o bando num ponto fixo, estimula reprodução acima do que o ambiente comporta e cria acúmulo de fezes secas em bancos, chão e estrutura pública. É essa fezes ressecada, transformada em poeira fina que se solta com o vento ou a varrição, que carrega fungo e bactéria: criptococose, histoplasmose, ornitose e salmonelose são doenças associadas a essa contaminação, e a via de entrada no corpo é a respiração, não o contato direto com a ave.
Quem alimenta pombo na praça diria que faz caridade, que a ave também precisa comer. O argumento não resiste ao que se vê: não é caridade sustentar, com pão jogado no chão, um bando que cresce mais rápido do que a praça suporta e que espalha doença sobre o próprio banco onde a criança senta. E matar os pombos, alternativa que volta e meia aparece como solução fácil, não resolve nada: a própria Universidade de São Paulo orienta que o extermínio não reduz população de pombo urbano, porque o espaço vago é reocupado por outro bando, e quem determina o tamanho do grupo é a oferta de comida disponível, não o número de indivíduos abatidos.
Resta, então, o que a prefeitura de Nova Friburgo ainda não fez: regular. O Instituto Brasileiro de Administração Municipal já reconheceu, em parecer, que o município tem competência para legislar sobre a proliferação de pombos por meio de postura municipal, o que afasta qualquer alegação de que o tema seria de outra esfera de governo. São Paulo já proíbe, por lei, alimentar pombo urbano e manter abrigo para eles em área pública; Balneário Camboriú vai além e cobra multa de R$ 431,54 de quem alimenta a ave em espaço público. Nova Friburgo pode e deve seguir o mesmo caminho: aprovar norma municipal que proíba a alimentação de pombos em praça e logradouro público, fixar valor de multa e dar à Guarda Municipal e à fiscalização de posturas a tarefa de aplicá-la. Apelo genérico à consciência do friburguense não mudou nada até aqui e não vai mudar daqui para frente. Regra escrita, com multa e fiscalização, muda.
Este texto é a opinião do Serra em Foco. Críticas e réplicas podem ser enviadas pelo Contato e serão publicadas.
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