Fundada em 1818 por colonos suíços, a antiga 'Suíça Brasileira' assiste à corrosão de sua identidade europeia diante do caos urbano, da poluição sonora e da omissão do poder público

Em 16 de maio de 1818, 261 colonos suíços oriundos do cantão de Fribourg desembarcavam nas terras altas da então Fazenda do Morro Queimado, dando origem à primeira colônia oficial de imigrantes não-portugueses do Brasil. A Colônia Nova Friburgo, idealizada por dom João VI, nascia com uma vocação clara: replicar nos trópicos a ordem, a arquitetura e o espírito comunitário dos vales alpinos. Por mais de um século, esse projeto deu certo. Friburgo foi sinônimo de ar puro, ruas limpas, jardins meticulosos, casarões de inspiração germânica e um pacato cotidiano que rendeu à cidade o apelido orgulhoso de ‘Suíça Brasileira’.

Quem caminhava pelo centro nas décadas de 1950, 60 ou 70 encontrava uma cidade que dialogava com sua origem. A Praça Getúlio Vargas, o Suspiros, o casario do Cônego, as confeitarias de tradição germânica, os hotéis serranos que recebiam a elite carioca em busca de friozinho e bucolismo — tudo compunha uma atmosfera única. Eventos como o Festival de Inverno, o Festival de Cinema e a decoração natalina de inspiração alemã reforçavam essa identidade. Friburgo se vendia, com legitimidade, como refúgio europeu a duas horas do Rio.

Hoje, porém, basta uma caminhada vespertina pela Avenida Alberto Braune para entender o tamanho do desencontro entre a cidade e sua própria história. Paredões sonoros estacionados, autofalantes de lojas disputando decibéis na calçada, buzinas em fila dupla, ambulantes amplificados, ônibus engargalados em horário de pico. A poluição sonora, que em Fribourg suíça é controlada por legislação rigorosa de zoneamento acústico, aqui virou paisagem cotidiana, tolerada por uma fiscalização que parece ter desistido de existir. O pedestre, esse personagem fundamental da urbanidade europeia, sumiu como prioridade.

O cenário se completa com calçadas esburacadas, lixo acumulado em esquinas centrais, fachadas comerciais que agridem o olhar — letreiros gigantescos, cores berrantes, plotagens improvisadas sobre janelas que um dia tiveram esquadrias de madeira trabalhada. Prédios históricos do início do século XX seguem sem manutenção, alguns com mofo escorrendo pelas platibandas, outros reformados de qualquer jeito, com revestimentos cerâmicos colados sobre alvenarias originais. A descaracterização arquitetônica avança sem que o patrimônio municipal consiga, ou queira, conter o estrago.

O resultado estético é cruel: trechos do centro de Friburgo hoje se parecem mais com bairros comerciais de Belford Roxo, Nova Iguaçu ou São João de Meriti do que com qualquer recanto serrano de tradição europeia. Não se trata, registre-se, de preconceito contra a Baixada Fluminense — cada território tem sua história e seus desafios. Trata-se de constatar que Friburgo abriu mão, por inércia, do que a tornava diferente. Trocou o silêncio do vale pelo grito do paredão. Trocou o jardim pelo concreto. Trocou o casarão pelo box comercial padronizado.

As causas desse processo são conhecidas e raramente enfrentadas. Um Plano Diretor que existe mais no papel do que na prática. Fiscalização urbanística tímida diante do poder econômico do comércio central. Especulação imobiliária que demoliu casarões para erguer prédios sem qualquer diálogo com o entorno. Ausência de um código de posturas rigoroso quanto a fachadas, letreiros e ruído. E, talvez o mais grave, uma classe política que há décadas trata a identidade friburguense como tema de discurso de aniversário da cidade, nunca como política pública contínua.

Compare-se com a Fribourg suíça, hoje uma cidade de pouco mais de quarenta mil habitantes que mantém intacto seu centro medieval, regula com rigor a sinalização comercial, preserva pontes, fontes e fachadas, e investe pesadamente em mobilidade ativa. Ou olhemos para dentro do próprio Brasil: Gramado transformou identidade germânica em ativo econômico bilionário através de planejamento urbano rígido; Petrópolis, mesmo com suas mazelas, preserva trechos do Centro Histórico com legislação específica e incentivos à restauração. Friburgo tem, no papel, instrumentos semelhantes — falta vontade política para aplicá-los.

Ainda há o que salvar, e é por isso que esta reportagem não é puro saudosismo. O casario do Suspiros resiste. Bairros como Conselheiro Paulino, Lumiar e São Pedro guardam traços bucólicos preciosos. O turismo de natureza segue forte. Mas é urgente que a próxima década enfrente, com seriedade, o controle do ruído urbano, a requalificação de calçadas, a padronização de fachadas comerciais no centro histórico e o tombamento efetivo do que ainda está de pé. Sem isso, o tombamento será apenas o literal — o dos prédios que cairão por falta de cuidado.

A pergunta que fica, e que esta casa devolve aos leitores, ao poder público e aos próprios friburguenses, é simples e incômoda. Que cidade Nova Friburgo quer ser nos próximos cinquenta anos? A herdeira orgulhosa dos colonos de 1818, capaz de modernizar-se sem trair sua origem? Ou apenas mais uma cidade média brasileira, ruidosa, descaracterizada e indistinguível de tantas outras? A resposta não está em Berna nem em Brasília. Está nas próximas decisões que tomarmos, ou deixarmos de tomar, aqui mesmo, nas curvas da serra.

By Tiago Monteiro Pacheco

Editor-chefe do Sou da Serra. Reportagens especiais e materias da semana sobre a Regiao Serrana do Rio de Janeiro.

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