Cabos de operadoras de internet e TV se acumulam sem padronização e contrastam com a arquitetura histórica da cidade serrana
Quem caminha pelo centro de Nova Friburgo, observa o casario de influência suíça na Praça Getúlio Vargas ou sobe em direção aos bairros tradicionais como Conselheiro Paulino e Olaria depara-se com um contraste incômodo: sobre a paisagem montanhosa e a arquitetura preservada da cidade, emaranhados de fios pretos pendem dos postes em verdadeiros novelos. Cabos de fibra óptica, coaxiais e fios abandonados se enroscam em alturas variadas, formando tranças que, em alguns trechos, chegam a tocar marquises e fachadas de prédios históricos. A poluição visual, denunciada com frequência por moradores e comerciantes, virou marca indesejada de uma cidade que se vende como destino turístico da Serra Fluminense.
O problema tem origem na sobreposição de responsabilidades. Os postes pertencem à concessionária de energia, a Enel, mas são compartilhados com operadoras de telecomunicações como Claro, Vivo, Oi e dezenas de pequenas prestadoras locais de internet, que instalam seus cabos mediante contrato de uso da infraestrutura. Na prática, a falta de padronização e o crescimento acelerado de provedores regionais nos últimos anos transformaram os postes friburguenses em mosaicos desordenados, onde cabos novos são lançados sem que os antigos, muitas vezes desativados, sejam recolhidos.

A legislação existe. A Lei Federal 13.116/2015, conhecida como Lei das Antenas, e a Resolução Conjunta Anatel/Aneel nº 4/2014 disciplinam o compartilhamento de infraestrutura e atribuem às operadoras o dever de organizar e retirar cabos sem uso. Ainda assim, a fiscalização é difusa e raramente chega à ponta. Em Friburgo, não há programa municipal contínuo voltado especificamente ao tema, embora o assunto seja recorrente em reclamações encaminhadas à Câmara de Vereadores e à ouvidoria da prefeitura.
Os riscos vão além da estética. Cabos mal tensionados podem se romper e cair sobre pedestres e veículos, especialmente nos temporais que castigam a região serrana. O excesso de peso compromete a estrutura dos postes, e o atrito entre fios de diferentes materiais já foi apontado por bombeiros, em ocorrências pelo país, como causa de princípios de incêndio. Em uma cidade marcada pela tragédia de 2011, qualquer fator adicional de risco em episódios de chuva intensa merece atenção redobrada.

Outras cidades brasileiras têm avançado em soluções. Curitiba e trechos centrais de São Paulo investiram em cabeamento subterrâneo em áreas turísticas. Petrópolis, vizinha de Friburgo, e municípios do interior paulista realizaram mutirões periódicos de retirada de fios abandonados, com participação conjunta de concessionária, operadoras e prefeitura. Niterói criou legislação municipal específica para padronizar a fixação dos cabos e multar infratores.
O caminho para Nova Friburgo passa, necessariamente, por articulação institucional. Cabe à prefeitura, em parceria com a Enel, a Anatel e as operadoras, estabelecer um cronograma de mutirões, identificar trechos prioritários, como o centro histórico e os corredores turísticos de Lumiar e São Pedro da Serra, e estudar a viabilidade de enterrar a fiação em pontos estratégicos. Mais do que uma questão estética, organizar os fios é proteger moradores, valorizar o patrimônio e devolver à cidade a paisagem que sustenta sua vocação turística.